Panóptico

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

FÁBULA DOS BICHOS - por Pirro
















Um tarde, vinham juntos de uma viagem
o Bode e o Caititu, 
animados entre uma pulha e outra.
O Caititu, para tirar uma de esperto, disse:
“Eu nasci no Povoado Pau Grande”
O Bode, percebendo o vacilo da frase, emendou:
“Quer dizer que você nasceu no Pau Grande”.
O Caititu engoliu seco com um nó na garganta
balançando a cabeça de um lado pro outro.

Depois de muito tempo, 
na passagem de uma encruzilhada
eis que os destinos se mordem.
O Bode, vendo o Caititu descendo a ladeira, caçoou:
“Veja só quem vem se balançado de gordo: o baixinho.
Parece um tôco de amarrar rato”.
O Caititu, como quem mordido por um escorpião,
ficou na ponta dos pés e retrucou à altura:
“sou gordo e baixinho, mas meu pau é grande”.
O Bode riu sem graça coçando sua barbicha.
Mas, de pronto, tirou da mochila uma frase reta
e com um riso no canto da boca,
olhou para baixo onde estava o Caititu:
“Sóoooo...! mas, pelo menos, nunca dei
e nem como meu próprio cu”.

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

DISCÍPULO DE DIONÍSIO



Sou um animal 
dotado de faro racional
porém, em meu sangue 
corre todos os contrários
diabólicos da natureza
como mar na loucura da ressaca
por isso, não vou para a igreja
nem academia de ginástica.
Vocês me entendem, 
espíritos puritanos?
Sou paixão, devir e iconoclasta
como um verdadeiro
discípulo de Dionísio.

sábado, 6 de outubro de 2012

UMA PUTA NA NOITE (por Pirro)

"Nu vermelho" (1917), por Amedeo Modigliani
Faltou luz no Novo Paraíso
           as velas foram acesas
Estávamos sentados
        feito fantasmas esquizofrênicos
       com a cabeçativa
       cervejando à luz de muitas idéias
O silêncio surgiu
     de lugarnenhum
Os vagalumes de nossos olhos
       perdidos nos contornos da fumaça
         Atômicos lampejos
            escupiam a geografia
            de seu corpo trêmulo
Lembrei dos velhos dias
quando um carnaval de gametas
       dançavam em nossos poros
       que sempre nos
                     sustenTARA
Num gesto último
       olhei seus olhos de puta quente
              e saí abraçando a noite
                        deixando para trás
                 uma esfinge
                      “devoradora de hombres”

"O temporal" (vídeo) - 16 de Abril (Live in Bugio)


16 DE ABRIL:

Vocal: Altemir
Guitarra: Saulo
Baixo: Júnior Lima
Bateria: Rominho

AGRADECIMENTOS PELO APOIO:
Dudu, Igor Meneses, Bucha, Sergio, Vertinho & Nitinho.

EDIÇÃO DE IMAGENS: Pirro

Show realizado em homenagem ao Bairro Bugio - Aracaju-SE.

Data: 23/09/2012







segunda-feira, 1 de outubro de 2012

"Tudo está errado" - 16 de Abril (Live in Bugio)



16 DE ABRIL:

Vocal: Altemir
Guitarra: Saulo
Baixo: Júnior Lima
Bateria: Rominho

AGRADECIMENTOS PELO APOIO:
Dudu, Igor Meneses, Bucha, Sergio, Vertinho & Nitinho.

EDIÇÃO DE IMAGENS: Pirro

Show realizado em homenagem ao Bairro Bugio - Aracaju - Sergipe


Data: 23/09/2012






segunda-feira, 10 de setembro de 2012

POEMA-SEM-FUTURO















"Não há nada de novo debaixo do sol"
(Eclesiastes)


Se for natural, meu chapa, fume seu cigarro
no escuro de um lugar propício
ou nos confins da Atalaia Nova
onde os últimos solitários abraçam a noite
e assistem a face medonha de Moloch
comandando a cidade dos papagaios

Moloch, Moloch, Moloch
num ataque de ambição e poder
surge do martelo da assembléia legislativa
e do sino patológico da catedral
refletido na face dos políticos e religiosos
turvando as águas do Rio Sergipe

Cadê o déga, cadê o déga!
eis que os camaradas precisam relaxar
ante a pressão da civilização selvagem

Cheire a lei de sua vontade alternativa
e segure a sua onda com calma
porque o bright dos postes ilumina
vários rostos sem nomes
dispersos desde os becos de lama
até os arranha-céus do Jardins

Moloch, Moloch, Moloch
brota num ataque epilético de proíbição
que reluz seus sinais de pavor
na gaiola de concreto e vidro
entre semáforos, buzinas e trocas de afetos

Cadê o déga, cadê o déga!
eis que os rapazes precisam dirigir a cabeça
ante o mal-estar da barbárie civilizatória...

domingo, 5 de agosto de 2012

"NUVENS" - produzido por Pirro



VOZ & VIOLÃO: Altemir (Banda 16 de Abril)

MÚSICA & LETRA: Marcão

CONCEBIDO & PRODUZIDO POR: Pirro Korisco

CENAS EXTRAS:

"L'Amour l'Après-Midi" - de  Eric Rohmer, com Danièle Ciarlet, a bela Zouzu.

"La femme d'à côté" - de François Truffaut, com Gérard  Depardieu & Fanny Ardant.

"La frontière de l'aube" - de Philippe Garrel, com Louis Garrel & Laura Smet.

"Vals Im Bashir" - de Ari Folman.

PERSONAS IN VIDEO:

Altemir
Marcão
Shayanne Sá
Clark Bruno
Pirro

ESTÚDIO: Bugio Home Vídeo

FOTOGRAFIA: Pirro Korisco e Rilke Pirralho

WEBSITE:

Blog Banda 16 de Abril
Blog Pirro's Bar

CONTATO/EMAIL:

altemir58@gmail.com
altemirjose.santos@facebook.com

pardalista@hotmail.com
http://facebook.com/​pirroa1

quinta-feira, 7 de junho de 2012

O SOL SE ESGUEIRA POR SOBRE OS PRÉDIOS DE ARACAJU (por Pirro)

"Aracaju ao pôr do sol" (por Danilo Nunes)



















O sol se esgueira por sobre os prédios de Aracaju,
os pardais enchem o céu de barulho
as ruas e avenidas estão tomadas
pelas buzinas e fumaças
Garotos e garotas chegando às escolas,
sob os cuidados de pais apressados
Operários com celulares e relógio Oriente
enchem os coletivos e táxi de lotação
condicionados como máquinas
para cair nas mãos sensíveis
dos capatazes da infernaria
depois de um domingo de bebedeira
e putaria nos bordéis, templos e igrejas. 

A visão do paraíso re-brilha
nas vitrines dos shoping centers
o pagamento na data inadimplente,
a venda da alma com a corda no pescoço
por um alto preço e um custo incerto,
Eles ainda acreditam em monstros,
no retorno do messias e na decência
eles dizem que a ação humana é tudo,
mas colocam seus passos e pegadas
sob vigilância da velha malandragem
dos doutores da retórica.

Lembro de Oswald nas ruas de Sampa
carroças nos trilhos dos bondes
eruditices de fachada anti-Patativa
nas entresalas do discurso vaidoso
Eles parecem que não estão antenados
com o real da vida excessivamente humana
Vejo todos se arrastando como lagartos
nos asfaltos manchados de freios.
No fundo, todos nós somos incrédulos...
mas o rebanho faz o pacto com o doutor
Os poetas estão cheios de palavras,
poucos tocam a rés do chão,
Os artistas falam de coitas d’amor
e de remelexos pagodeados
que fazem tremer o esqueleto
dos bonecos de deus.

O Brasil vai bem e Aracaju sorri
como uma bela puta socialite cinquentona
catando fichinha entre as paredes hedonistas
da Assembléia Legislativa e salões de festas.

quinta-feira, 31 de maio de 2012

THE STRIP (por Fernando Sá)

Fremont Street -  Las Vegas

Enquanto caçava os níqueis de meu coração despedaçado
Arturo Bandini me fitava
Do outro lado da mesa.

Las Vegas,
City de Memórias de filmes idos
meu pai
Entre um continental – sem filtro – e outro.

O cheiro do carpete mofado do Astec Inn
cassino disputado por velhos em suas últimas apostas
- DE VIDA –
Quase sempre frustradas,
Como as putas de plantão.

O ventilador de teto olhava-me impassível e lento
Entre câmeras de vigilância
Lembrando-me dos quartos do Real Porão
Em Brasa City.

Mar de luzes de freio
Pássaros brotavam de árvores
A caminho do hotel.

A lua entrava na sala e eu conversava com os astros
Em busca de decifrar os passos futuros.
Meu filho me esperava em casa
Prestes a nascer
E eu aqui percorrendo as ilusões do deserto
Colorado River.

Nas encruzilhadas da cidade-cassino,
Pensei domar os instrumentos dos sonhos.
Peter Tosh catarola Depression man no rádio
Enquanto a máscara, que enfeitava o quarto, fitava-me questionadora:
Aonde foram parar os sonhos revolucionários de antanho?

Tudo continuava atrasado, inclusive os sonhos naquela noite
Que também não chegaram.

terça-feira, 1 de maio de 2012

PRESSENTIMENTOS DE ALBATROZ (Pirro)



















Vou andando por entre a multidão
Com pressentimentos de albatroz,
Ouço protestos cansados e vãos
Que se arrastam e mordem o pó.

Semblantes famintos e sofridos
Surgem nos bairros sujos do lodo
Percebo o caos e o torpor inscritos
Sobre a pátria merda desse povo.

Ao som do mau-gosto tão profundo
É celebrada a festança trio-lúdica...
Nos palcos precários do submundo
O povo dança conforme a música.

Dos becos lamacentos da noite,
Ouço a fala enlatada dos pregos
Os estalos graves dos açoites
Espetam os olhos destes cegos.

Urbanóides movidos à máquina
Aspiram a líricos projetos
Crocodilos banhados em lágrimas
Pelas ruas rudes de concreto.

E o povo nesse circo de mamatas
Arrasta-se através dos tempos
Só vomitando sapos e pragas
Perdido em seus passos sonolentos.

domingo, 15 de abril de 2012

CONSCIÊNCIA SOCIAL (por Sergio Dedão)


Tristes premonições do que vai acontecer, por Goya.


 
 
 
 
Para o homem filósofo, historiador e visionário que desmistificou o Brasil: Caio Prado Jr.




 
 






Vi garotos de rua cheirando cola e catando bias de cigarros
                                                              no jardim de infância da Vida.
Assisti prostituta dize que além de dinheiro, aceitava ticket refeição
                                                        e vale-transporte por uma trepada.
Descobri que quem come os homens são as mulheres.
Ou melhor, é a mulher que se deixa. seduzir e ser saboreada,
                                                                                 tudo parte do jogo.
Ouvi a Esquerda declarar que iria mudar a estrutura social, política e
                                                                             econômica do Brasil.
                                  Pura balela: são todos da mesma natureza-laia
                                  Esquerda ou Direita, reacionário-conservadores.
          Observei sindicalistas protestarem em nome do Deus Dinheiro.
            Fui a vernisagens cheias de quadros que não diziam nada,
                                                         puro desperdício de tinta e tempo.
                         Vi ladrões de gravatas criando leis em nome do povo.
                         Assisti o Brasil, dito federação, trabalhar em nome
                                                    do elefante branco chamado sudeste.
                                             Descobri que a história educa os homens.
Ouvi dizer que Fernando Henrique também sabe justificar
                                                            suas merdas em vários idiomas.
Observei que o Brasil não deve comprar trigo da Argentina e deixar
                                             o “Cavalo” quebrar as Patas e as apostas.
Fui a palestras universitárias que não passavam de verborragia
                                                                                     intelectualizada.
                                      Vi nos fatos da história grandes homens,
                                          como Lamarca e Marighella, morrerem por
                                                                 uma grande causa brasileira.
Assisti prestes juntar-se a Getúlio depois deste matar sua mulher e
                                                                                           seus amigos.
Descobri que São Vicente-São Paulo quer escravizar o Brasil
                      em seu nome e no nome dos latifundiários e industriais.
   Ouvi dizer que o incêndio da Tupi foi criminoso. Dar pra adivinhar
                                                                                              quem foi?
Fui à escola-universitária e descobri que ela serve para conservar
                        tudo que é atrasado e conservador na nossa sociedade.
Vi via-satélite os aviões destruírem o símbolo capitalista-imperialista
                                                                      chamada Torres Gêmeas.
Assisti os americanos despejarem bilhões de dólares em bombas,
                     enquanto o povo do Afeganistão morria de fome e sede.
Descobri que vencer na vida não é ser culto,
                                                   é ter dinheiro para comprar o mundo.
Ouvi dizer que o cigarro causa câncer fiquei nervoso e acendi um
                                                                            cigarro atrás do outro.
Observei que grandes ideias e grandes homens só são compreendidos
                                                                               muitos anos depois.
                                           Fui a grandes festas e a grandes casas,
                                              mas nada disso me deixou deslumbrado.
Vi que no Brasil quem tem valor e pensa diferente é tratado como
                                                                                  indigente cultural.

Sergio Dedão
18/11/2001

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

A UMA DESCONHECIDA (por Pirro)

"Mulata" (1972), by Di Cavalcante.





















Como numa tela de Di Cavalcante
vejo a nêga mais bela do Bugio
passando em minha porta
como um gato ágil e desconfiado.
Observo a eletricidade 
de seus movimentos
e lembro-me de Jackie Brown
iluminando o concreto urbano
de meus pulmões e mente.
Lá vai ela como noite selvagem
excitando o sangue de meus instintos...
Alheia às minhas sensações,
a nêga desaparece na esquina,
e fico tão bêbado como Bukowski
observando o saculejo do pandeiro dela.
A música pára de tocar no cd,
repito o disco e faço a cabeça
esperando ansiosamente ela retornar.
Creio que a vida pulsa por isso:
bebo, fodo, fumo e morro fumegante
para o sol do dia seguinte.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

PARA SANTOS E LEÕES (por Heitor Andrade)


(fotografia do filme Desejo e Obsesseção de 2001, com Vincent Gallo)













Que venham as pedras!
E os leões sem pecado
Que me afagam a pele,
Devoram a alma de carne
Por completo desprezo.
Para a nódoa que me trouxestes hoje,
E a cada dia,
Já não há mais lugar.
Meu lençol não é santo,
Como não é santo esse altar.
Venham, espinhos!
Dirimir os pecados,
Santificar a puta dissimulada
Em oblíquos olhos de ressaca.
Ainda tenho vinho tinto, rosas vermelhas
Ritmo do corpo, sangue fervente.
Venham sem medo!
Leões, famintos, em pecado
Putas-santas, em seus mantos vermelhos,
Devorar a carne da alma
Em completo desprezo.

                                                              Heitor Andrade

domingo, 5 de fevereiro de 2012

INVECTIVA PÓ-ÉTICA (por Pirro)
















Por que estou olhando o sol frio da madrugada,
no outro lado da cidade 
sem boates nem shopping centers?
Por que contemplo as bucetas divinas
que passam pulsantes 
diante de meus olhos de carcará?


Por que me chapo de cachaça até a tampa
nas mofadas tardes aracajuanas?
Por que busco acender uma chama  
entre as bestas mascaradas de cordeiros
que pastam nos campus universotários?


Por que ando plantando escarros
no meio de uma legião de hipócritas cristãos,
que ainda celebra o que há tempos 
já não pode ser celebrado?
Por que proclamar a igualdade,
se existem idiotas para serem domesticados?


Ora, ora... fodam-se os sacerdotes de plantão!


Felizes são aqueles que buscam 
            no chiqueiro de suas vidas
            uma postura pó-ética
            que afirme a vida em seu constante devir
            sem rezas, auto-ajuda ou metafísica.


Felizes aqueles que sabem colher ervas
            em seu próprio quintal,
            sem se preocupar 
            com o barulho messiânico
            do outro lado do muro.