Panóptico

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

AUTOBIOGRAFIA (by Lawrence Ferlinghetti)

(Café Terrace at Night, 1888. By Vincent Van Gogh)
       CRÔNICA AMERICANA
                                              Pirro
          Confesso que todas as vezes que eu leio o poema Autobiografia, que sempre chamo de "Bar do Mike", do poeta beatnik Lawrence Ferlinghetti, uma emoção irrompe de dentro de mim como se eu estivesse revisitando minha própria vida. O poema reflete uma auto-imagem de minhas memórias, desde a infância até hoje. Literalmente, não vivi nada do que está sendo descrito nele, pois tudo que está no poema Autobiografia descreve de modo estético a propria visão de mundo, a vida re-vivida, o cotidiano de um homem ordinário americano, que creio ser justamente o próprio poeta. Mas o que é individual atravessa, em sentido universal, os valores de toda uma sociedade americana do Pós-Guerra, em relação a qual o poeta sanfrasciscano imprime uma crítica liríco-visceral contra os valores, as crenças, os sonhos e o modo de vida apregoados e vendidos pelos Estados Unidos. E de modo universal, o poema também atravessou as fronteiras norte-americanas e, não sei se por influência da tão decantada pós-modernidade, adentrou outros locais de cultura onde vivem outros indivíduos que aí se encontram, em qualquer sertão do mundo... E a propósito, o sertão está na cidade e a cidade está no sertão. Isso foi e está sendo invevitável, pelo menos para mim, indivíduo que trás consigo a experiência do campo e da cidade.
         Como indíviduo latino-americano, ao ler pela primeira vez o poema o "Bar do Mike", isto é, Autobiografia, do Ferlinghetti, senti uma empatia tão grande que o reli durante uns três dias. Na época em que eu comecei a desgustar o poema, eu tinha o hábito de beber umas cervas com meu amigo Fabrício, um sujeito gente-boa que trabalhava embarcado. Sempre bebíamos no meio da semana. Quando Fabrício chegou em minha house, eu estava lendo o poema. Botei o livro do Ferlinghetti debaixo do braço, saímos e seguimos, como de praxe, em direção ao Bar do Ivo. Sentamos em uma mesa logo na entrada e pedimos uma skol deskoladamente gelada. Olhei em volta do Bar. Os latino-americanos do Bar do Ivo, no Bugio, levavam uma vida tão ordinária tanto quanto os americanos do Bar do Mike, "na parte baixa da Broadway". Aqui, enquanto uns jogavam sinuca, outros arriscavam uns trocados nas máquinas caça-níqueis. Outros bebiam e falavam das manobras do governo do PT, e o Ivo os atendia com os dentes abertos e cheio de manha.
          Comecei então a falar entusiasmado para meu amigo sobre o Bar do Mike, da vida ali engradecida pelas imagens do passado e do presente, do canto entusiástico que as palavras encerravam, da energia dos poetas beatniks e da sua poesia colada à vida... Já de fogo, comecei a ler o poema pra ele, em voz alta. Fabrício acendeu o cigarro e soprou sua vida pro ar, sem entuasiasmo nenhum. Percebi então que era melhor fazer como Nietzsche, abraçar um cavalo e beijar sua testa dura. Fabrício não sentiu nada, não entendeu nada. Só fez ri, dizendo em seguida: "você é doido mesmo, bicho!". Porra, foi como um balde de água fria lançado em meu espírito bêbado pela atmosfera do Bar do Mike. Fechei o livro na hora, e ri sem graça. Depois, balancei a cabeça, pensando: o Bar do Ivo não é como o Bar do Mike. No Bar do Mike certamente estaríamos ouvindo Crossroads, de Robert Johnson. No Bar do Ivo, ouve-se Bruno e Marrone e suas dores de corno, enquanto o Secretário do diabo de Jackson do Pandeiro foi enterrado na lixeira da memória latino-americana. No Bar do Mike com certeza ouvia-se Cocaine Blues de Johnny Cash. No Bar do Ivo, ouve-se o kisch da Calcinha Preta, enquanto o Carcará de João do Vale foi esquecido pelo indivíduos provisórios brasileiros, reflexos automáticomentais dos meios de comunicação de rebanho.
          Paguei a metade da conta e saí fora, decepcionado, com o livro do Ferlinghetti debaixo do sovaco, e pensando o quanto a maioria dos homens são anti-poéticos, anti-pensadores... Eles estão e não-estão no mundo. Jogam fora a possibilidade de se ver a si por meio da arte, e de se reconhecer no outro, aqui e lá, em seus sonhos, misérias e dores, na América do Norte ou na América Latina. Eles não percebem o quanto estamos transligado neste único planeta onde a experiência da vida e da morte é sentida a fundo, mas que pode ser dignificada num sentido épico-narrativo (engradecimento, heróico), lírico-cômico (sentimentos patéticos e ridículos) e trágico (os sofrimentos, as duras penas e lições). Foram estas as impressões experimentadas por mim ao beber a essência etílico-vital do Bar do Mike, como afetuosamente o denomino. Ferlinghetti conectou o passado individual e coletivo ante as experiências do Século XXI. Com isso, me conectou a mim, a ele próprio e a muitos outros vagamundeando pelas aldeias do mundo. Vamos ao poema.

AUTOBIOGRAFIA* (Lawrence Ferlinghetti)
(ou BAR DO MIKE)

Levo uma vida sossegada
no Bar do Mike todo dia
olhando os campeões
do Bilhar do Dante
e os viciados em fliperama.
Levo uma vida sossegada
Na parte baixa da Broadway.
Sou um americano.
Fui um garoto americano.
Li a Revista do Garoto Americano
e me tornei um escoteiro
nos subúrbios.
Pensei que eu era Tom Sawyer
apanhando lambaris no Rio Bronx
e imaginando o Mississipi.
Eu tinha uma luva de beisebol
e uma bandeira dos USA na bicicleta.
Entreguei o Companheiro da Dona-de-Casa
às cinco da manhã.
Ainda consigo ouvir
o jornal caindo na porta das casas.
Tive uma infância infeliz.
Vi Lindberg aterrisar.
Voltei a olhar para casa
e não vi anjo algum.
Fui apanhado roubando lápis
na Loja A Barateira
no mesmo mês que ganhei
a Águia dos Escoteiros.
Cortei árvores para a CCC
e me sentei sobre elas.
Desembarquei na Normandia
num bote inflável que virou.
Vi os exércitos civilizados
na praia de Dover.
Vi pilotos egípcios em nuvens vermelhas
mercadores fechando a loja
ao meio-dia
salada de batatas e gerânios
em piqueniques anarquistas.
Estou lendo “Lorna Doone”
e a vida de John Most
terror dos industriais
uma bomba na escrivaninha o tempo todo.
Vi a parada dos lixeiros
quando nevava.
Comi cachorro quente pelas praças.
Ouvi falar em Gettysburg
e em Ginsberg.
Gosto disso aqui
e não vou dar as costas
pro lugar donde eu vim.
Também viajei em vagões vagões vagões.
Viajei entre gente desconhecida.
Estive na Ásia
com Noé na arca.
Estive na Índia
quando Roma nasceu.
Estive na manjedoura
com um jumento.
Vi a Divina Providência
olhando de uma Casa Branca
ao sul de San Francisco
e a Mulher que Ria em Loona Park
do lado de fora do circo
durante uma tempestade
mas sempre rindo.
Ouvi o som da festança de noite.
Caminhei sozinho
como uma multidão.

Levo uma vida sossegada
no Bar do Mike todo dia
olhando o mundo passar
com seus sapatos esquisitos.
Um dia comecei a dar
a volta ao mundo
mas acabei no Brooklyn.
Aquela Ponte foi demais para mim.
Me engajei no silêncio
exílio e astúcia.
Voei muito perto do sol
e a cera das minhas asas derreteu.
Estou atrás do Meu Velho
que eu nunca cheguei a conhecer.
Procuro o Líder Perdido
com o qual eu fugi.
Jovens deviam ser aventureiros.
É da casa que se sai.
Mas Mamãe nunca me disse
que ia ser assim.
Mamãe-eu-quero
Pernas para cima
Eu viajei.
Vi cidades imbecis.
Vi massas nas missas.
Ouvi o Chico chorando.
Ouvi um trombone rezando.
Ouvi Debussy
meio tocado assim.
Dormi em mil ilhas
onde os livros eram árvores

e as árvores eram famílias.
Ouvi uns passarinhos
cantando como sinos.
Usei calças de flanela
E caminhei nas bordas do inferno.
Morei numas cem cidades
onde as árvores eram livros.
Que metrôs que táxis que lanchonetes!
Que mulheres com peitos cegos
bucetas perdidas entre arranha-céus!
Vi as estátuas dos heróis nas praças.
Danton chorando na entrada de um metrô
Cristóvão Colombo em Barcelona
apontando para o ocidente
na direção do Expresso Americano
Lincoln em sua cadeira de pedra
E uma Grande Cara de Pedra
na Dakota do Norte.
Sei que Colombo
não inventou a América.
Ouvi falar de uns cem Ezra Pound fudidos.
Deveriam ser libertados todos eles.
Faz tempo que eu era da manada.

Levo uma vida sossegada
no Bar do Mike todo dia
lendo os classificados.

Li o Reader’s Digest
de capa a capa
e observei a identificação

entre os Estados Unidos e a Terra Prometida
onde toda moeda traz marcado
In God We Trust
mas as notas de dólar não
elas são deuses por conta própria.
Li as listas de Procura-se todo dia
procurando uma pedra uma folha
uma porta secreta.
Ouço os Estados Unidos cantando
nas páginas amarelas.
Ninguém diria
a alma tem suas fúrias.
Leio os jornais todos os dias
e vejo gente perdida
nos tristes meandros da imprensa.
Vejo onde o lago de Walden foi secado
para dar lugar a um estacionamento.
Vejo que estão fazendo
Melville engolir sua baleia.
Vejo outra guerra vindo
mas não vou estar lá para lutar.
Li a frase no muro da casa.
Ajudei o Juquinha a escrevê-la.
Subi a Quinta Avenida
tocando uma corneta num pelotão
mas voltei às pressas até o Casbah
procurando meu cachorro.
Vejo uma semelhança
entre cães e eu.
Cães são os verdadeiros observadores
pra lá e pra cá no mundo
atravessando o país.
Desci ruelas
estreitas demais para cadilaques.
Vi cem carroças de leite sem cavalo
num terreno baldio em Astória.
Bem Shahn nunca fez um quadro delas
mas elas estão lá
parte da história.
Ouvi o muito obrigado do drogado.
Cruzei superhighways
e acreditei nas promessas dos cartazes
Atravessei os campos de Jersey
e vi as Cidades da Planície
E chafurdei nos descampados de Westchester
com seus turbulentos bandos de nativos
em carroções.
Eu os vi.
Eu sou o homem.
Eu estava lá.
Sofri de alguma forma.
Sou um americano.
Tenho um passaporte.
Não sofro em público.
E sou jovem demais para morrer.
Sou um homem que se fez sozinho.
E tenho planos para o futuro.
Estou na fila
para um posto lá no alto.
Pode ser que eu esteja indo
para Detroit.
Só por uns tempos
estou vendendo gravatas.
Sou um joão-ninguém.
Sou um livro aberto
para meu patrão.
Um mistério completo
para meus amigos mais íntimos.
Levo uma vida sossegada
no Bar do Mike todo dia
olhando para meu umbigo.
Sou uma parte
da longa loucura do corpo.
Vaguei pelas florestas da noite.
Me encontrei em portas bêbadas.
Escrevi histórias selvagens
sem pontuação.
Eu sou o cara.
Eu estava lá.
Sofri
de alguma forma.
Sentei numa cadeira incômoda.
Sou uma lágrima do sol.
Sou uma colina
onde os poetas correm.
Inventei o alfabeto
depois de contemplar o vôo das gralhas
que formavam letras com suas pernas.
Sou um lago na planície.
Sou uma palavra
numa árvore, escrita numa árvore.
Sou uma colina de poesia.
Sou um safári
ao inarticulado.
Sonhei
que todos os meus dentes tinham caído
mas minha língua vivia ainda
para contar a história.
Pois sou um alambique
de poesia.
Sou um banco de canções.
Sou um pianista
num cassino abandonado
numa esplanada à beira-mar
numa neblina forte
sempre tocando.
Vejo uma semelhança
entre a Mulher que Ri
e eu.
Ouvi o som do verão

na chuva.
Vi garotas nas calçadas
ter sensações complicadas.
Compreendo suas hesitações.
Sou um apanhador de fruta.
Vi como beijos
causam euforia.
Arrisquei bruxarias.
Vi a Virgem
sobre uma macieira em Chartres
e Santa Joana queimada
em Bella Union.
Vi girafas em trapézios
os pescoços como o amor
ferida em torno das circunstâncias de ferro
do mundo.
Vi Vênus Afrodite
sem braços no corredor.
Ouvi uma sereia cantar
na Quinta Avenida.
Vi a Deusa Branca dançando
na Rue des Beaux Arts
no Catorze de Julho
e a Bela Dama Sem Misericórdia
assoando o nariz no Chumley’s.
Não falava inglês.
Tinha cabelos amarelos
e uma voz rouca
e passarinho não cantava.
Levo uma vida sossegada
no Bar do Mike todo dia
olhando os que apostam na loteria
compondo a cena minestrone
devorando macarrão
e eu li em algum lugar
o Significado da Existência
mas esqueci
exatamente onde.
Mas eu sou o cara
E vou estar lá.
E posso fazer os lábios
daqueles que dormem
falar.
E posso transformar meus cadernos de notas
em folhas da relva.
E posso escrever meu próprio
epitáfio epônimo
instruindo os cavaleiros
que passam.
* extraído do livro Coney Island of the Mind, traduzido pelo grande Paulo Leminski.

2 comentários:

Andrei Albuquerque disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Andrei Albuquerque disse...

E o ordinário continua a nos esmagar lentamente...